Entre 2010 e 2015, os custos estimados por doença cardiovascular (DCV) aumentaram 17% no Brasil. Esse dado foi divulgado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em estudo que utilizou informações dos sistemas de saúde público e privado, e que considerou custos diretos e indiretos.

A pesquisa, que sugere que os custos por DCV tendem a aumentar ainda mais nos próximos anos, em função do envelhecimento da população, foi publicada em junho nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia[1]. Autora da pesquisa, a Dra. Alessandra de Sá Earp Siqueira, que é cardiologista, analista de gestão pública do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e doutora em Clínica Médica, falou sobre o estudo ao Medscape.

Para reunir dados sobre mortalidade e morbidade (custos indiretos), os pesquisadores utilizaram o Sistema de Mortalidade Hospitalar (SIM) e os sistemas de Informações Hospitalares (SIH) e Ambulatoriais (SIA) do DATASUS. As duas últimas bases serviram também de fonte para estimar os custos diretos associados às DCVs, entre eles, gastos com tratamentos clínicos, cirúrgicos, internações, órteses, próteses ou materiais especiais. Informações sobre afastamentos temporários e/ou permanentes foram obtidas na base de dados da Previdência Social (DATAPREV), e dados do setor privado de saúde foram obtidos por meio da Agência Nacional de Saúde (ANS). Como nem todos os dados 2014 e 2015 estavam disponíveis no momento em que a pesquisa foi feita, os autores estimaram esses valores usando um cálculo de progressão linear.

Outras fontes de informação usadas na investigação foram estudos observacionais prévios, acessados pela base de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), e dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Durante os cinco anos analisados, a parcela de brasileiros com mais de 65 anos de idade aumentou 22%. Em 2015, os custos estimados por doença cardiovascular foram de R$ 37,1 bilhões de reais. Morte prematura por DCV representou 61% do total de custos para essa enfermidade, enquanto custos diretos com internações e consultas representaram 22%, e os custos com a perda de produtividade foram 15% do total.

Os custos estimados para DCV atrelados à morte prematura foram muito mais elevados do que a expectativa inicial da equipe, conta a Dra. Alessandra. O fato de os custos indiretos se mostrarem tão relevantes indica que as DCVs estão causando um ônus importante à sociedade.

Qualquer indivíduo que morre precocemente por uma doença, ou deixa de trabalhar por alguma condição médica, está causando também um ônus para a sociedade por não estar contribuindo, inclusive do ponto de vista financeiro”, diz ela, acrescentando que o grupo fez um cálculo simples para chegar ao impacto da mortalidade: “diminuímos da expectativa de vida do brasileiro o ano em que o indivíduo morreu pela DCV”.

Redução de aposentadorias por DCV indicam maior controle

A pesquisa mostrou também que o número de aposentadorias por DCV está diminuindo no país, enquanto a quantidade de benefícios concedidos por auxílio-doença relacionados a essa condição está aumentando. Esse resultado, segundo a pesquisadora, reflete o que os médicos têm observado nos últimos anos nos consultórios: embora as DCVs sejam muito prevalentes no país, são cada vez mais eventos agudos que fazem o indivíduo interromper a vida laboral temporariamente, mas que permitem que ele volte ao trabalho depois.

“Ainda há um número grande de aposentadorias concedidas, por exemplo, por insuficiência cardíaca ou por acidente vascular cerebral (AVC), mas já temos redução do número total de aposentadorias por invalidez relacionadas às DCVs, o que representa um resultado animador. Esse achado mostra que já estamos conseguindo ter um pouco mais de controle sobre as DCVs, pois o brasileiro está vivendo mais tempo com essa condição”, diz.
Essa dinâmica ainda não é uma realidade para outras doenças crônicas não-transmissíveis. A Dra. Alessandra desenvolveu estudo semelhante avaliando o impacto econômico do câncer no sistema de saúde brasileiro, usando um modelo baseado em dados dos serviços públicos. A pesquisa mostrou que tanto a quantidade de aposentadorias quanto a de auxílios-doença por neoplasia aumentou entre 2010 e 2015[2]. “Nesse caso, notamos que se trata de uma doença ainda sem controle, diferente das DCVs, em que já conseguimos ter redução das aposentadorias”, diz.

Transição epidemiológica

Entre os fatores que contribuíram para o crescimento dos gastos com DCVs no Brasil no período analisado, os custos com medicamentos foram os que mais aumentaram (88%), seguidos pelos custos da previdência social (66%) e da morbidade (33%).

Segundo a Dra. Alessandra, os custos em saúde com doenças crônicas não transmissíveis, incluindo DCV, vêm aumentando em todo o mundo. Os gastos são ainda maiores nos países desenvolvidos ou de alta renda. Por exemplo: atualmente o Brasil gasta cerca de 9,5% do produto interno bruto (PIB) per capita com saúde e, entre 2010 e 2015, o percentual médio do PIB gasto com doenças cardiovasculares foi de 0,7%. Já nos Estados Unidos mais de 17% do PIB per capita é gasto com saúde[3].

Conforme a população envelhece, a tendência é de que os custos com doenças crônicas não transmissíveis aumentem. “Em países mais pobres, nos quais ainda não aconteceu a transição epidemiológica – evolução progressiva de um perfil de alta mortalidade por doenças infecciosa para outro onde há predomínio de mortes por doenças crônico-degenerativas –, os gastos ainda são grandes com doenças infecciosas, como a diarreia infantil”, afirma a especialista.

Mas os gastos podem variar dentro de um mesmo país. “Tomando o câncer de mama como exemplo, notamos que essa neoplasia mata muito mais mulheres nas regiões Sul e Sudeste do que na Nordeste[4], onde ainda há grande mortalidade por doenças infecciosas. Estamos começando a ver agora o início da transição epidemiológica nessa área e, como consequência, está começando a ocorrer um aumento da mortalidade por doenças crônicas”, diz a médica.

As DCV podem ser consideradas como um grande desafio para a saúde pública mundial, assim como outras doenças crônicas não-transmissíveis. A Dra. Alessandra explica que o objetivo da pesquisa foi justamente tentar medir o impacto socioeconômico das doenças, a fim de embasar estratégias para minimizá-lo. “As informações ajudam pelo menos a discutir como os recursos estão sendo alocados, e em que nível de atenção. Precisamos estar sempre investindo em novas pesquisas, em novas tecnologias, mas é preciso avaliar se o estado de saúde da população está melhorando como um todo”, diz.

A pesquisadora acredita que é importante investir também em estratégias de promoção de saúde, e em medidas que incentivem a modificação de fatores de risco evitáveis. “Quando gastamos com saúde básica, ou investimos para que a pessoa se alimente melhor, faça atividade física, estamos também efetivamente reduzindo os custos do próximo passo, que são os tratamentos especializados”, afirma a médica.

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